O Horta, o Santos, a Lisboa, o Santa Cruz… a Rua Formosa e outras “ruas”…

Meia cidade ficou espantada, dessa metade outro meio ficou indignada e desse meio,outra metade sentiu verdadeiramentente como uma perda o encerramento da centenária pastelaria Horta.

Mas, qual o espanto? Resistiu e muito a casa, os seus proprietários, os seus colaboradores e, até, os seus clientes. Resistiram ao fecho das congéneres Santos e Lisboa, aquelas de que tenho memória, ao encerramento do emblemático Café Santa-Cruz, ao desaparecimento do Mercado 2 de Maio. Hoje, a rua Formosa, outrora a mais importante da cidade, encontra-se quase que reduzida à condição de rua que liga o Largo de Sta. Cristina ao Rossio e que, por acaso, até tem umas quantas lojas comerciais, quais “gauleses” que teimam em resistir… Ainda bem que resistem.

Mas, não é o encerramento do “Horta”, per si, que me trás aqui. O que me leva a escrever este texto é a consciência clara que a falta de visão estratégica e integrada sobre o comércio local por parte do trinómio comerciantes/Associação Comercial/Câmara Municipal foi, também ela, responsável não só por este encerramento mas pelo estado comatoso em que se encontra grande parte do comércio tradicional da cidade de Viseu.

Este problema arrasta-se faz tempo, é constrangedor o definhar de uma rua Direita, por exemplo, outrora o maior centro comercial de Viseu, mas definha-se por todo o lado e, pasme-se, até nos aglomerados comerciais enlatados o definhar se faz sentir… Culpa da crise está-se a ver…

O trinómio que atrás enunciei falha logo na base, os comerciantes. Infelizmente, muitos deles não souberam evoluir, não acompanharam a evolução dos mercados e acabaram irremediavelmente trucidados pelas cadeias de roupa “enlatada”, barata ou não. A Associação Comercial, que devia estimular a que isto não fosse uma realidade, prega qual S. Tomás, sem repercussões. Podia e devia ser mais interventiva, reconheço o esforço mas quando os associados e principais beneficiários não arriscam, não estão disponíveis para avançar, é difícil. Mas, pergunto eu, porque será que muitos não se revêm na sua Associação? E, não é de agora, já vem de trás…
Quanto ao Município, bem, o discurso é sempre o mesmo, a Câmara nada pode fazer, apenas o faz na medida em que a colaboração for solicitada e “até ajuda na iluminação de Natal”…
Pois é, nada parece funcionar ou ter capacidade para mudar o actual estado do comércio. Exige-se mais, exige-se aos comerciantes que se modernizem, que acompanhem as tendências, que flexibilizem os horários, que promovam a qualidade da oferta e do serviço, à ACDV exige-se que sirva de força aglutinadora de um movimento de reabilitação do comércio tradicional, que puxe pelos seus associados e e se ponha ao serviço destes, que exija do Município uma clara política de ajuda ao sector, através do incremento de iniciativas que levem pessoas a “frequentar” as ruas, a dar vida às mesmas através de incentivos de instalação de novos projectos na zona comercial tradicional da cidade, que transforme o Mercado 2 de Maio num verdadeiro centro cívico de convívio e cultura da cidade. Tanto que pode ser feito no âmbito deste trinómio. O que é preciso é congregar vontades, agilizar processos e procedimentos, é ter uma aposta clara no comércio de rua, trazer para o centro, também as grandes marcas, as chamadas lojas âncora. Porque não criar um fundo para a revitalização do comércio? Etc., etc., etc….
O comércio não é parte integrante da “marca Viseu”?
Até quando vamos continuar a assistir ao “esvaziamento” da cidade?
Até quando continuaremos a assistir a discursos estilo Calimero por parte de quem é responsável mas que parece mais preferir nada fazer do que mexer, até porque, a culpa é sempre dos outros?
Até quando continuaremos satisfeitos com o pouco que se faz, mas que para alguns já é muito, no âmbito da promoção da cidade nas suas mais variadas vertentes?
A Viseu do Século XXI não se compadece com visões estreitas e que não vão além do Pavia…
A Viseu do Século XXI tem de se afirmar como uma verdadeira capital de uma vasta região, mas para isso, precisa de mudar de atitude, precisa de se abrir, precisa de abrir as janelas e abrir-se ao mundo… Precisa de novas ideias, de novas políticas, precisa de mais pessoas, precisa de acreditar que é possível levar o Rossio às aldeias, trazer as aldeias ao Rossio mas que, também, é possível trazer o “mundo” à cidade…

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One response to “O Horta, o Santos, a Lisboa, o Santa Cruz… a Rua Formosa e outras “ruas”…

  1. Fundada em 1972 por João José Horta. Nela, e em minha casa por afinidade, aprendi a saborear a nobre pastelaria que lá se fabricava. Tudo se perde nesta cidade sem Memória e sem memória a cidade fica por falta de Memória.

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